domingo, 1 de janeiro de 2012

Estória de Pescador

            Certa vez, talvez por acaso, à beira de um lago raso, estava o amigo magro. Anzol na água, mágoa nos olhos, peixes no lago... Um trago no cigarro de palha, uma fisgada na isca... O amigo está concentrado, nem pisca... Chega a sair faísca de seus olhos atlânticos... Entoa um cântico antigo...
            É, meu velho amigo... nem cantando atraiu os peixes...
            Levantou-se sem pressa, cortou a lenha, juntou os feixes...
            - Vamos, mulher! Não deixe essa lenha aqui fora!
            Após ter dito isto, seus olhos atlânticos tornaram-se românticos e ele foi para o bar. Nem bem acabou de chegar e alguém com barba e mau hálito lhe peguntou:
“E aí, magro? Como foi a pescaria?”
“Melhor tentar um outro dia”, respondeu o meu velho amigo.
Sentado, chupando uma laranja de umbigo, estava seu velho conhecido. Tinha fama de bandido, sem roupa ou abrigo... um antigo morador do vilarejo. O amigo magro sentou-se e conversou com aquele homem de mente fria... parecia ter comido algo nojento... o pobre coitado arrotava a todo momento.
            O amigo contou sobre o fracasso de sua pecaria. E o velho homem, jurando que não mentia, contou sobre o seu sucesso:
“Lá onde eu pesco tem peixe em excesso... chega dá medo de virá a canoa! A água é tão boa que nóis até vê o tamanho dos bicho. Da última vez joguei um cachorro morto de isca... E arrisca só o que eu peguei! Não foi nem truta, nem mosquito, nem salmão... Adivinha só! Peguei foi um tubarão!”
O amigo magro sorriu e respirou fundo, sentindo o mau cheiro do velho imundo... sem casa, sem nome e mentiroso... Pobre homem... nem sequer era estudioso... bom se fosse...
Na mente do velho analfabeto tinha até tubarão de água doce.

Por Eder Orsolin

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Milagre do Amigo Magro

Era uma vez...?... Ou duas vezes?!?!...    

            O meu amigo magro, de olhar parabólico, que subia no telhado p’ra olhar a vizinha tomando banho na caixa d’água, estava cantarolando uma daquelas modas antigas, que os surfistas caipiras ouviam à beira do mar. Ele estava noivo de sua noiva que era uma moçoila jovem de pouca idade que tinha um toque de juventude em seu olhar imaturo.
            Passa dia, passa mês, passa minuto... Só não passa aquele amor que ele não sente enquanto fuma um cigarrão de páia sentado na porteira do curral que lembra sua casa, devido à sujeira.
            Ele se levantou, andou sem contar os passos e entrou em sua humilde casa que estava limpa, ou por um milagre divino, ou porque sua noiva, de quem era noivo, resolvera limpá-la. Parou, pensou e ajoelhou-se no oratório para agradecer a Deus caso aquilo fosse um milagre. Acendeu velas de sete dias e rezou...
            O amigo magro, de olhar parabólico, levantou-se após alguns instantes e saiu. Não se despediu, nem se despiu, nem sequer cuspiu no chão como era seu costume. Não levou anzol para pescar cardumes, nem lanterna p’ra brincar de vagalume... Simplesmente saiu. Não levou cigarro, nem palha, nem fumo... Fugiu de casa, saiu sem rumo.

(Eder Orsolin - 09/05/2001)

domingo, 25 de setembro de 2011

A Carne é Fraca

Descobri por acaso o caso do açougueiro que era vegetariano.
Seus clientes carnívoros garantiam o sucesso do negócio.
Seu sócio um dia o chamou para jantar em sua casa.
Há muitos anos o açougueiro não comia carne, mas a carne é fraca e ele não resistiu.
Serviu, repetiu e sentiu um terrível mal-estar após o jantar.
Foi parar no hospital.
O tal jantar, farto de carne quase o deixou vegetando.
É... a carne é fraca... mas ele foi forte e teve sorte de não ter virado presunto.

(Eder Orsolin)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Guarda Noturno

O guarda noturno dorme de dia. O dia começa sempre mais tarde. Mas tarde não quer dizer tarde demais, nem significa que não haja tempo para fazer o que tem de ser feito. 
O prefeito esquece do que tinha p'ra fazer e faz de conta que fez a conta de quanto nos deve. Ele deve estar ficando louco, ou um pouco doente... 
De repente ele bebeu demais no fim de semana passado. Deve ter passado da conta. Mas as contas ainda estão lá, e a gente aguarda, enquanto o guarda noturno que não usa coturno veste a sua farda.

Por Eder Orsolin

domingo, 11 de setembro de 2011

3

Ah, que dia cansativo!

Acordei três vezes durante a noite.
De manhã, o relógio tocou três vezes e eu o desliguei.
Andei três metros e estava no banheiro.
Saí pelo portão, andei trezentos e trinta e três passos até a padaria
Onde três míseros pães me custaram três reais!
Ao sair de lá, arranjei uma encrenca.
O cara tinha o triplo do meu tamanho.
Me deu uns três socos e saiu
Em um dos três carros que estavam no estacionamento.

O telefone tocou três vezes, mas não era você.
Andei três quarteirões até a sua casa,
Dei três batidas na porta e você disse:
“Espere um pouco... só uns três minutinhos!”
Os três beijos que te dei não foram suficientes...
Nem os três abraços...
Dei mais três passos,
Apanhei três flores para ti...
Você sorriu três vezes e me deu mais um beijo...
Ótimo!
Finalmente algo aconteceu mais de três vezes!
Com esse, foram quatro beijos.

Agora estou indo ao médico...
Só espero que ele não peça p’ra eu dizer trinta e três!

(Eder Orsolin)

sábado, 10 de setembro de 2011

Luz Negra

Hoje em dia as noites não são mais tão escuras. E, quando escurece, a luminosidade ainda está no céu do dia que, de repente, vira uma noite negra cheia de luzes que brilham, iluminando o escuro da claridade que ninguém vê, por estar escuro demais. Quanto mais claro, menos se enxerga! 
E pode-se ver claramente que a  escuridão ofusca a visão, e até a televisão, que é obscura, procura com clareza nos dar uma luz em meio à penumbra. 
Luz..... que não ilumina por muito tempo.... 
Menos tempo que uma vela, que posta em sua janela não pode ser vista durante o blecaute.
Espero que haja luz, e que a lucidez faça brilhar seus lindos olhos negros!

(Eder Orsolin)

Noite no Cinema

Peguei três ingressos e entramos no cinema...

Eu, eu mesmo e a pipoca.

"Coloque o filme logo!"
"Não espere a minha paciência ir embora!"
Já era hora de começar
E estavam todos revoltados com o atraso.
Pensavam que o filme seria um arraso.
O caso é que já era tarde
Quando o filme finalmente começou.
Depois de enfrentar a longa fila,
O mau-humor e o cheiro de axilas...
...lá estava ele: O Filme!

Ficaram fixados na estória,
Um drama que fica na memória.
Lá do fundo alguém gritou:
"Já sei como acaba esse filme!"
"O assassino é o mordomo!"

E então as pipocas começaram a voar como mísseis.
"Idiota! Contou o final do filme!"
Havia um corpo no chão, cheio de hematomas...

O delegado perguntou:
"Qual o motivo do crime?"
"Aquele imbecil... contou o final do filme"

E aquele pobre cidadão descansou em paz.
Contou o final do filme.
Morreu porque falou demais.

Na saída do cinema conversei comigo mesmo...
Algo ficou na memória...
Quem era mesmo o assassino, se não havia nenhum mordomo na estória?

(Eder Orsolin)